Será que é possível fazer um estoque de amor, de carinho e de lembranças que nos ajude a matar a saudade? Acho que esse é um dos dilemas de nove entre dez estrangeiros que encontro morando aqui. Todos não vêem a hora de visitar a família e contam nos dedos os dias que faltam para pegar o avião e aterrissar no colo da mãe, do pai, do irmão, dos amigos… Existe uma expectativa imensa de que alguns dias de convívio ajude a aguentar os próximos longos meses ou anos distantes.
Podemos sentir saudade de tudo e de todos… Sentimos saudade de pessoas queridas que estão longe da gente, saudade daqueles que já se foram e que sabemos que não veremos mais nesta vida, saudade do passado… têm os que afirmam sentir saudade até do que não aconteceu. Mas aí o nome deve ser outro, né?
Saudade é uma velha conhecida minha. Me apego tanto ao que já passou, que acho que nasci com saudades até das minhas vidas passadas. Sou cacarequeira. Guardo objetos, papéis, sentimentos. Assim sendo, a saudade sempre fez parte da minha vida. Mas foi somente quando conheci meu marido e me apaixonei de verdade que aprendi a conviver com ela. Durante mais de dois anos a saudade grudou em mim. Me acompanhava onde quer que eu fosse, não em deixava em paz e até segurava minha mão para atravessar a rua. Eu fechava os olhos achando que ela iria embora, mas lá estava ela nos meus sonhos. Até voz ela tinha, e fazia ligação internacional.
Eu estava pronta para me despedir dela quando peguei o avião para me mudar para a Suíça, mas ela decidiu embarcar comigo. Eu, apertada na classe econômica, e ela bebendo champagne na business class. Nos cruzamos de novo na alfândega e adivinhem? Ela decidiu se mudar para a minha casa. E de mala e cuia!
Deixei de sentir saudade do meu marido para ter saudade dos meus pais, da minha família, da minha cidade, dos meus amigos, do meu país, da minha vida de solteira… Aqui na Europa tive problema com a saudade. Ela ficou rebelde e muito folgada, passou a engordar e começou a ocupar espaço demais na minha vida. Quase enlouqueci.
Daí minha avó faleceu. E a partir deste dia comecei a ver a saudade de outra forma. Essa saudade não dá para matar com um abraço apertado em cumbica nem amenizar com horas de skype. Percebi que ela não iria embora nunca, ficaria para sempre ao meu lado. Com o tempo, então, achei melhor arrumar um espaço para ela, antes que ela o tomasse por si só. Dei casa, comida e roupa lavada, e assim ela entrou de vez para a família.
O curioso é que quem sente esse tipo de saudade, essa saudade de alguém que nunca mais vai voltar, saudade de uma mão que nunca mais vamos segurar e de um carinho que nunca mais vamos receber aprende muito sobre saudade. Aprende a relativar as coisas. Aprende que é até gostoso sentir saudade do cheirinho do seu bebê quando ele está na creche, aprende que um beijo mata a saudade do marido que estava viajando a trabalho, aprende que ligar para os pais e enviar fotos para os amigos alivia a saudade entre um encontro e outro. Aprende que a saudade pode até se tornar uma amiga querida.
E assim os dias vão passando e a saudade vai ficando mais velhinha. De vez em quando até meio esquecida… ultimamente tenho observado uma coisa curiosa: a saudades que mora lá em casa anda mais calma e tranquila. De vez em quando, no fim da tarde, ela se senta ao meu lado no sofá, segura minha mão e ficamos nós duas sorrindo e olhando a esperança tentando engatinhar no chão da sala.